29 de dez de 2015

Já curtindo 2016!

2016 será um ano "ímpar" para mim, principalmente no que se refere ao lado profissional: três eventos importantes no exterior em que falarei sobre o épico (Granada, Atenas e Paris); o desenvolvimento e a conclusão do projeto "Jovens cronistas dos sertão", com a publicação do livro com o mesmo título; o terceiro volume de História da epopeia brasileira (escrito a quatro mãos com Anazildo Vasconcelos da Silva); a viagem cultural a João Pessoa com os graduandos e pós-graduandos de Letras da UFS; a publicação do livro Aspectos do conto contemporâneo, reunindo textos de mestrandos da UFS; a publicação de meu livro de poemas Lição de voar, com estudo crítico de Juliano Carrupt; o lançamento da Revista Épicas; a participação na organização e na realização do evento III SEDiAR que acontecerá na UFS São Cristóvão de 30 de maio a 3 de junho; a realização do projeto Sergipe é poesia! (que envolve sub-ações como "Olha o poema na escola 2", "Poesia ilustrada" e a "II Noite de Gala da Poesia Contemporânea"); e a publicação do livro Gêneros textuais na literatura infanto-juvenil, com textos dos mestrandos do PROFLETRAS/ITA! Fora algumas novidades sobre as quais falarei mais tarde!! Enfim, o ano promete!!!





27 de jul de 2015

A.Mor


Christina Ramalho
 
O meu amor tem um jeito manso que é só seu…
(CHICO BUARQUE)
 

Para onde me levam os passos do homem que sigo como as transparentes águas do rio obedecendo a seu leito? Para onde me leva este amor envolvente e terno como o aconchego maternal que nos surpreende e resgata nos momentos de dor? Como distrair o pensamento em coisa outra qualquer que não a doce fluidez de tua essência se derramando em mim? Como reinventar o tempo distante, como ter outras lembranças, se não me reconheço fora do que a tua presença me trouxe de espelho? Serão necessárias as perguntas, quando meus poros respiram o sim que meu peito reflete? Poderão ser mais sinceras quaisquer respostas que a intraduzível verdade que vibra as cordas da minha emoção? Perguntas, meu A.Mor, apenas perguntas que brotam da atmosfera de música e poesia em que te encontro. Perguntas, amor, apenas perguntas sábias de respostas, perguntas que querem dizer todas as certezas nas entrelinhas das interrogações.

Não. Minha vida está imersa em sonho, e não há perguntas, nem há respostas – há única e exclusivamente a seda de tua pele, a melodia de tua voz, a infinita beleza de tua sensibilidade e, mais que tudo, há o teu amor, presença mor e mais valiosa. Deixa, portanto, que eu te diga hoje, meu querido, aquilo que não é pergunta, nem resposta. Deixa que eu te presenteie com o que o poeta jamais alcança, com o que o compositor persegue durante toda a vida, com o que o pintor busca alcançar até a última pincelada. Deixa que eu te presenteie com o que eu mesma seria incapaz de tocar com a sensibilidade e transformar em presente; com o que não é lago, nem peixe; barco, nem porto; casa ou ruína; e também não é estrada, estação; rotina, ou identidade. Mas, apenas e justamente, o que está no meio de tudo e que, por isso, é o tudo.

Assim, eu te dou todas as impossibilidades vivenciadas e as músicas encarceradas no silêncio; as flores, a lembrança das flores e a lembrança do aroma das flores; o mistério, a luz, a escuridão e a tempestade, e mesmo o sofrimento e o medo, porque em todas essas coisas sonho e vida se misturam e dão origem a algo que me parece semelhante com o que me deste: esta intraduzível certeza de estar completa. Eu sou tua menina, viu? Tu és o meu rapaz. Corpo e alma testemunham o bem que este amor me faz.
 
[crônica publicada no livro Gente (crônicas) - Rio de Janeiro: Oficina, 2015]


23 de mar de 2013

Álbum imaginário



Meus olhos têm o hábito
de espiar as cenas da vida
ora por frestas de portas
ora em janelas tardias
ora ainda nas auroras
que reinventam os dias.

Nessa busca pela imagem
tantas vezes escondida
habita o desejo secreto
de flagrar na paisagem
algo de santo, sagrado
repousado num relance
que pode ser flor ou bicho
que pode ser casa ou gente.
Algo, enfim, onde habite
a magia que se sente
quando alma, cor e forma
em um momento solene
compõem um traço divino
que eterniza o presente

Assim chegou a  meus olhos
um par rimando seus gestos.
Ele, na oferta do abraço,
Ela, em pleno aconchego.
O sol, brilhando na praça,
O mar, cedendo seus versos.
Sem lentes para guardar o tempo,
convertendo emoção em matéria,
restou-me um flash impalpável
que ficará certamente
no álbum imaginário
que visito constantemente.
Porque ali a vida vive
muito além desta esfera
onde impera intratável
um monstro chamado Quimera.

Ao contrário, nesse álbum
enfeitado de esperança
encontro a centelha divina
que de amar não se cansa.

11 de nov de 2012

O amor é isso



O amor é isso:

festivo rosto
maldito encosto
reciclado lixo
mordido bicho
caso impensado
sapato usado
sede bandida
fruta comida
curiosa fé
temido pontapé
delícia fatiada
angústia lapidada
infinito abraço
corajoso laço
adjetivo substantivo
substantivo adjetivo
                                   subjetivo
definição nenhuma:
só isso
tudo isso
nada disso
sem adjetivo
sem substantivo
com junção.
Conjunção!

(Christina Ramalho)

4 de nov de 2012

Aracaju, uma ótima opção para se viver! Problemas? Claro que há! Tal como a fruta, algumas vezes surge o gosto de "cica". Mas que doce é, em geral, o sumo que se extrai da experiência de viver aqui!

31 de out de 2012

Anita, minha tia menina



Dizem os estudiosos da mente humana e de seus mitos que a criança, o adulto e o velho vivem simultaneamente dentro de todos nós em todas as fases de nossa vida. Por isso, há crianças cheias de sabedoria, adultos que mantêm viva a alegria e a pureza infantis, idosos que soltam o riso como crianças, sabem manter o equilíbrio na hora certa e sempre têm histórias bonitas para contar. Contudo, a correria, as grandes doses de dor e mesmo a falta de coragem de insistir na busca pela felicidade fazem com que os que passaram da infância silenciem pouco a pouco a voz da criança que poderia acompanhá-los e contribuir para que a vida fosse menos dura e séria. Assim, infelizmente, embora a própria ciência afirme que a criança está em todos nós, poucos conseguem mantê-la atuante, naquilo que a criança tem de bonito, positivo, vivo.
Ela, minha tia Anita, é uma menina. Seu rosto, seus olhos e sua voz revelam a sabedoria de ser menina. Sem deixar de ser uma mulher, bonita e valente, ela enche a vida de quem a cerca de diminutivos que possuem o dom de ser colo. Minha tia dá colo com a voz! Palavras como “filhinha”, “filhinho” e “amorzinho” chegam a nossos ouvidos com um carinho tão grande que é impossível não sentir por ela uma ternura imensa que imediatamente se volta em nossa própria direção, oferecendo-nos uma sensação gostosa de aconchego, de colo. Ela, com seus diminutivos, faz com que nos sintamos amados. E embora muitas vezes seja ela quem pareça uma menina pedindo uma palavra de carinho, uma manifestação de afeto ou se saudade, seu jeito meigo inverte a lógica das coisas e somos nós que ficamos a pedir que não nos falte nunca o seu carinho.
Menina ela é. Mas menina forte, menina sábia, que em lugar de colecionar dores coleciona esperanças. Que conserva a alegria de brincar de casinha e, por isso, é capaz de enfrentar qualquer reforma sem perder o rumo do sonho de estar sempre cercada de beleza. Não a beleza imposta pela estética do mundo, mas a beleza como ela a vê. A beleza que ela quer, nas cores, azulejos, pisos e plantas que ela quer. Porque ela é menina, e as meninas brincam usando sua imaginação, sua capacidade de imaginar e criar. Nas pouquíssimas, mas ricas, vezes em que estive em sua casa, jamais deixei de me encantar com a delicadeza com que ela cuida dos detalhes, com sua preocupação constante em ter tudo bonito, a seu gosto.
A risada alegre e mesmo certo biquinho que surge vez ou outra também são manifestações dessa menina. Anita, minha tia, sorri como os anjos e acaricia como as fadas. E mesmo se fica um pouco zangada, essa zanga nunca resiste a um pedido de desculpas, um beijo de perdão, um abraço pedindo compreensão.
Minha tia menina foi mais forte do que as aparentes determinações do destino e voltou à escola quando poucos imaginariam que fosse capaz disso. E não voltou somente, voltou contente, com a mesma ilusão que têm as meninas quando descobrem o mundo através da escola. E eu bem sei que, não fossem as responsabilidades que tomam seu tempo, e que ela assume com igual carinho, ela iria ainda mais longe e estudaria mais e mais. Acho que ela nem sabe, mas eu senti um orgulho danado ao vê-la lutando para superar as limitações e ter seu diploma. Que tia essa!
Nem falo dos exemplos que deu enfrentando problemas de saúde inúmeros, ou da determinação com que acolheu os filhos, os netos, os irmãos e as irmãs, os sobrinhos e as sobrinhas, a parentada toda, enfim! E agora, bisavó, ela parece ainda mais menina. Basta ver o brilho nos olhos que surge ao falar do pequenino... E, além disso, a família enorme se estende além dos laços de sangue, porque há amigos e amigas, vizinhos e vizinhas, gente de toda parte que sabe muito bem a força que tem a Dona Anita, minha tia menina.
Agora minha tia menina completa 80 anos. E sabe o que ela faz? Joga o zero fora e reinventa a idade. Faz-se jovem, bonita, iluminada, e mostra para nós que fazer 80 pode ser fazer 8, 16, 24, 32, 40, 48, 56, 64 ou 72, porque todas as idades podem ser lindas se estão acompanhadas dessa bela sabedoria de manter viva a criança e brincar com a vida, sem, contudo, perder o senso de responsabilidade e justiça. Certamente ela gostaria que eu lhe desse oitenta beijos, porque ela gosta de beijos, de abraços, de carinho. E, se eu estivesse presente, lhe daria todos. Mas, como não posso estar com ela, na bela comemoração de seus 80 anos, mando, em forma de palavras, oitenta agradecimentos pela lição que ela me ensina desde minha própria infância: manter sempre viva a ternura. Não posso dar os beijos, mas me conforto na absoluta certeza de que outras pessoas que a amam muito terão muitos beijos e abraços para paparicá-la como ela merece em seu dia. Assim, minha tia Anita, aceite meus beijos virtuais e esse sentimento profundo de amor e gratidão por ter recebido de Deus o presente de ser sua sobrinha.
Parabéns, minha tia menina, nossa Anita, nossa querida.
Nos 80, nos 90, nos 100 e em todos os aniversários que virão pela frente, todos nós que a amamos dançaremos uma valsa suave, doce e delicada ditada pela alegria de tê-la em nossas vidas!

Christina
Outubro de 2010

15 de out de 2010

Cabo Verde 1


Primeiro, o céu. Carregado de cores e de expectativas. Depois, as nuvens se dissipando dentro de mim, à espera da revelação.
Voar é carregar asas no peito, azuis no olhos, vento nas mãos e muita esperança no comboio de corda.
No ar, 13 de outubro de 2010.

30 de ago de 2010

Ao la(r)go


imagem: um lago

você no meio

la(R)go

eu nas águas

do seu afago

ala(R)gando

margens

:imagens

30 de dez de 2009

Ando vestida
de saudade viva.
Cada roupa
é um recanto,
uma pessoa,
um momento.
Se tiro a roupa,
a carne sangra.
Nao é roupa.
É pele.

4 de nov de 2009

Again

De novo
faz frio.
Reciclagem
nos armários,
reciclagem
na pele,
e,
de novo,
saudade
do Rio.

1 de out de 2009

Maria de Todas as Graças

À noite,
ela me agasalha
em seu útero de luz
e sentimento.
De dia,
ela me acompanha,
indicando trilhas
com seus passos.

Onipresente.
Mãe extremada.
Tudo,
quando a vida
parece dizer "nada".

Contar das graças
que recebo,
deixar correr grata
a emoção em lágrima,
tudo é pouco
quando todas
são as bênçãos
de minha Maria,
nossa Maria,
a que vela por nós
quando imaginamos
estar sós.

24 de set de 2009

Tia Rachel

Eu sou a "quase filha",
e, por ser "quase",
tenho mais que lágrimas:
tenho aquela parcela
de comedimento
aquela capacidade de lucidez
que só tem
quem não é carne viva
por inteiro.


Você gostaria dessa foto.
Eu sei que gostaria.
Nela você é o que sempre foi.
Grande estrela.
E você sabia que era.
E, por isso, era
escandalosamente
você.
Por isso,
as feridas abertas na carne,
as unhas fincadas na terra,
o olhar agudo e a mulher terna
(para quem sabia
a estrela que era).
E, por isso, se foi assim:
deixando a dura lição
de partir feliz e radiosa
contrariando a máxima
de que a morte
é uma despedida triste
da alegria da vida.

Mais uma lição da minha tia:
partir majestosa,
dando um olé na vida,
para seguir estrela
pela próxima.
Que orgulho tenho
de que chegue assim,
inteira,
quando antigos prognósticos
diriam: "se foi a pobre Rachel..."
Pobre é quem não sabe
dos tesouros que você
soube criar
transformando pó em ouro,
alquimista dos reveses.

Vai, minha tia,
minha estrela.
Sua luz fica aqui
brilhando nas jóias irmãs
que tenho
e um pouco em mim
também,
"quase filha" que fui
nos braços seus
que me embaralaram
quando vivi meus reveses.

19 de set de 2009

Buhardilla

luzes idéias
livros telas
canto descanso remanso
tintas recortes
fotos velas
um pouco de tudo
o nada
e eu
metida nela.

12 de set de 2009

Despertador

O que me toca
nesta hora
é susto.
Não.
A vida, sim,
é susto
................................sem botão para apertar
hora após hora
susto após susto
até o despertador
................................tão indesejado das gentes.

5 de jun de 2009

Mimo

Às quatro da manhã
pedaço de nada
miado malhado amigo
faz café comigo.







18 de fev de 2009

Rapidinho

Entre tintas,
paredes,
cores previstas,
improvisos,
mãos e mente
coloridas,
mas ressecadas
e antigas,
abre-se a fenda do tempo:
estou aqui
(mesmo esquecida de mim).

4 de out de 2008

Poetar... por quê?

Um corpo poroso. Um mata-borrão. Um sentimento de urgência atado ao dia-a-dia. Movimento de resistência às forças que estagnam. Mola-mestra para as tentativas de tradução dos enigmas do mundo. Desejo vivo de ir além da morte. Filtro colocado na boca do esgoto. Rosa-dos-ventos. Biruta, indicando os ventos; biruta, amalucando o planeta. Galo cantando manhãs. Cigarra cantando tardes. Coruja piando noites. Panfleto vermelho jogado no chão. Munição, arma, desejo de guerra. Mansidão, flor, desejo de paz. Teia de aranha nas prateleiras. Folha no chão dizendo “É outono!”. Suor no rosto dizendo “É verão!”. Cachecol no pescoço dizendo “É inverno!”. E todas as primaveras no corpo ao mesmo tempo. Ampulheta acionada pela voz da urgência. Onda batendo forte, onda serpenteando mansa. Farol no meio do mar. Oásis no deserto. Pronto Socorro. 0800. Palavras gritando contra o silêncio que aflige. Palavra revestida de outra palavra. Palavra reinventada na boca de espera. Palavra ensimesmada querendo amigo. Palavra em estado de graça plantada na realidade sem graça. Palavra ainda sem nome nascendo dos acontecimentos. Palavra surda e muda com linguagem de sinais própria. Palavra com medo. Palavra sem medo. Palavra sem dinheiro. Palavra que não se cala. Palavra que canta. Eis o poeta.

Por que poetar? Porque, além das livrarias e das bibliotecas, além dos comércios e dos críticos, além muito além do improvável sucesso, há, no poeta, uma angústia incessante de dizer, no sentido transitivo de expor, enunciar, exprimir por palavras; proferir; discursar; recitar, declamar; mandar, ordenar; rezar; mostrar, indicar; referir, narrar; dar a conhecer, apregoar; apontar, censurar; supor, imaginar; afirmar, asseverar; estar inclinado a crer, ter opinião, parecer; chamar, denominar; aconselhar, persuadir; aquilo que lhe vem como verbo intransitivo. Poetar, porque, acima das antologias e das histórias literárias, acima das feiras e das bienais, acima muito acima das listas dos mais lidos, há, no poeta, um livro infinito a ser escrito em forma de livros finitos. Há, no poeta, um menino sempre vivo que fala o que sente porque é menino, e um velho, muito velho e sabido, que converte em símbolos as palavras do menino para que este não apanhe e deixe, por isso, de ser menino.

E porque o poetar não exige tempo nem espaço para existir como pulsão; e porque o tempo e o espaço se inscrevem no poetar como matéria-prima de uma fábrica pré-existente; o poeta (e o contista e o cronista e o romancista e o dramaturgo e todas essas palavras no feminino), escravo do fabricar, vive, ele próprio, além das fronteiras. Ontem, hoje ou amanhã, não importa. A poesia é o mundo sendo. A poesia é o gerúndio. E o poeta, o galo, a cigarra e a coruja sustentando bravamente o gerúndio da poesia.

Christina Ramalho
(para Filipe e seus alunos do PH, no dia 30 de setembro de 2008)

11 de abr de 2008

Chuvas

Chove no nordeste. Chove em Natal. Minha cidade-sol anda molhada e esquecida de seus azuis. Todavia, ainda linda, irradia aquela paz nordestina e, de vez em quando, deixa que alguns raios atravessem as nuvens como a brincarem de nos dizer que logo voltarão a saracotear pelas praias.

Chove no nordeste. Natal continua linda. Mas há gente sofrendo. Gente mergulhada na água antes tão escassa e desejada. Como em Vidas secas, a chuva parece debochar de destinos tão carregados de privações. Assisto às reportagens e me pergunto: o que temos feito por essa gente? Por que tanto sofrimento batendo em nossas retinas como um espelho? E por que tão poucos reflexos a espargir soluções?
Chove no meu pensamento. Alagada como o nordeste, a mente se espanta com o fato de eu conseguir extrair alegria da vida, da cidade, do sol e da tempestade enquanto há gente boa, gente trabalhadora e sofrida sem motivos para qualquer alegria. Que egoísmo é esse que me faz conseguir ser feliz em meio a mulheres de rostos doces e marcados que choram suas casas perdidas, seu abandono?
Chovem paradoxos no mundo. E eu, repentinamente, me vejo do lado mais cruel. Aquele onde residem os que perderam muito pouco e acham que sabem de tudo.
(11 de abril de 2008)

16 de mar de 2008

Alice, a menina-arraia

Hoje, dia 16 de março, foi dia de praia. Tabatinga, Nísia Floresta, Rio Grande do Norte. Sem as filhas, que sempre compõem comigo o trio Chris/Gabi/Isa, a não ser que o plano seja "praia", tive a alegria de uma pequena parceira: Alice, minha sobrinha de 10 anos de idade.
O céu estava quase limpo. Uma ou outra nuvem dava à paisagem aquele ar de "motivo para uma pintura", já que nuvens brincando de desenhos no céu sempre enfeitam as marinhas. A cor do mar trazia azuis de várias gamas, e a temperatura das marolas certamente impediria que o desejo de abandonar as águas surgisse. Assim, antes dos mergulhos, Alice e eu passeamos pela beira do mar sem pressa. Eu, mostrando a ela a beleza daquele pedaço do Rio Grande do Norte; ela, alegre, perseguindo os filhotinhos de siris até conseguir colocar um em sua mão. Depois do passeio, enfim, a água.
Alice, menina-arraia, tornou minha manhã um aquário natural, onde a "tiabarão" ou a "chrisbarão" e a pequena e loira arraia brincavam de lutar, pular, abraçar, perseguir, e mesmo, simplesmente, largar o corpo no ritmo das marolas e entrar em sintonia com o indescritível. Menina-arraia levada e carinhosa, era só abraços e risos, sem saber que, com seus gestos, dissipava a solidão da tia (que anda em tempo de maresias) e preenchia a saudade que todos os dias 16 de março sempre trarão. Talvez, naquele oceano de azuis, um Arthur golfinho brincasse também e, assistindo à alegria da priminha e da mãe, que há dezoito anos vive sem ele, se sentisse igualmente pássaro e livre, pronto para partir novamente, depois do reencontro anual com aquela mulher que jamais esqueceu os olhinhos azuis do filho. Brincadeira e lembrança tinham sal, mas sal da vida, não da morte.
No final, ritual de caranguejo, casquinha-de-siri, sorvetes e cocas zero cumprido, voltamos juntas cantando o "Pelados em Santos" e o "Rindo à toa". Mar, amar, brincar, cantar. A rima pobre de sempre fazendo rica a vida da gente.
Em Tabatinga, Alice, menina-arraia, compôs um dia feliz para mim, quando eu pensava que teria um 16 de março sem água, sem azuis, sem peixes, sem brincadeira. Ei, menina-arraia, valeu!!

13 de mar de 2008

Tempestade em Natal

Berros sacodem as janelas do meu quarto, antecipando o despertador. Tempestade em Natal. Entreabro as cortinas. Meu azul fez-se branco e bravo, e chora violento, espargindo angústias sobre telhados e vidros. Buscar Apolo é uma impossibilidade tão grande, que imediatamente recolho olhos e desejo e volto a buscar as cobertas para esconder minha solidão.

Talvez a cidade brinde essas águas. A sede do sertão será aliviada. O calor deixará de ter a força aguda que franze as testas. As flores das avenidas certamente estarão viçosas amanhã ou depois, quando a chuva se for. E o curso da vida seguirá nos espelhos d’água que ainda ficarão nas avenidas.

Mas eu contarei no relógio o tempo que me separará de Apolo. Ele é o único que sabe derramar luz em mim.

13/03/2008

5 de mar de 2008

Uma crônica-ode por falta de versos competentes

Ter poetas entre os amigos é algo marcante na vida de qualquer pessoa. Embora poemas alheios a seus autores sejam acessíveis a nós, bastando, para isso, que busquemos tê-los por perto, quando quem está próximo de nós é um poeta (ou uma, registre-se bem), não tem jeito: algo que muitas vezes nem pensaríamos em buscar se apresenta diante de nós, instigando-nos o tempo todo a romper com a monotonia do pensamento 3 X 4. Um amigo poeta é colírio, é susto, é aquele par “anjo/demônio” soprando gracejos em nossos ouvidos. Pensamos: “o mundo é uma merda!” E nosso amigo poeta diz a mesma coisa. Mas não diz a mesma coisa. Diz mais. Diz diferente. Diz de um jeito tão danado de bom, que, de repente, passamos a olhar para o tal “mundo merda” com olhos que não tínhamos. E, como uma contradição, ao olharmos para o mundo através dos olhos que a poesia construiu em nós, ele, o mundo, também de repente parece não ser “tão merda” assim... afinal, não é que nele habita um poeta? Falo isso e me lembro do poema “Fardo (a consciência do zero, 1981)”, do livro Rarefato (1990), de Frederico Barbosa:

tenho que
tentáculos afiados tentando
fincar a vista futura feito
oráculo

não sou cego não sossego

Raio de poeta que nega Homero para ser um. Raio terrível de poeta que brinca de dizer quão aguda é a palavra que percebe além de nós, que guarda lince nos olhos, angústia na consciência do vaticínio que nem vaticínio é, porque não há sequer espaço para a consolidação da imagem que se previu. O mundo acelera o poema, que morre logo depois do ponto final. Isso, poeta, não use o ponto final. Não sossegue. Nunca.
Ter poetas entre os amigos é essa coisa angustiante de se ver invadido/a por esses tentáculos afiados e ter que sobreviver sem as sobras do que éramos antes do poema. Poemas cuspidos em nossa cara, em nosso cotidiano, em nossa mesquinha necessidade de pularmos contentes dentro da bolha que nos protege, sem perceber que ela é de sabão. Amigos poetas, com sua chuva de sentidos, exigem de nós reinaugurações constantes. É um “reinventar-se” que não acaba nunca. É aquela consciência de ser o solitário entre as gentes, de ser o sobrevivente cuja reinauguração jamais é suficiente, como me faz recordar outro amigo poeta, o Luiz Otávio Oliani, no poema “Fatalidade”, do livro Fora de órbita (2007):

a vida pulsa em hiatos
e não sei pedir socorro

camaleão fora do ventre
transmudo a cor à revelia

mas a morte não é daltônica

Outra vez sem ponto final. Outra espetada na consciência tão placidamente sentada na ante-sala do existir, isenta de poemas, como uma vida (?) confortável deveria ser. E, no entanto, todavia, contudo, porém, vem-nos o amigo poeta, com seu poema dizer não o que precisamos ouvir, mas o que precisamos ter para dizer. E a não daltônica morte visita nossa ante-sala soando todos os alarmes e dizendo: “Não há sala!! O que você está fazendo aí? Esperando o quê?” Ele não pede socorro, mas nos socorre. Sina maldita.

Ter poetas entre os amigos é, assim, estar sempre cutucando aquela feridinha antiga, numa espécie de ritual sadomasoquista, em que somos algozes e vítimas. Algozes, porque amamos nossos amigos poetas mais do amamos a nós mesmos, logo, com eles aderimos à desconstrução do mundo e viramos guerreiros absurdos com baionetas que atiram fonemas e ferem alguns poucos ouvidos atentos. Vítimas, porque, embebedados por suas palavras, saímos mesmo por aí, atirando em tudo, principalmente em nós. E, no entanto, todavia, contudo, porém, e todas as adversativas que os amigos poetas nos trazem, ressuscitamos a cada novo poema, como conseguiu fazer Lau Siqueira, com seu “Bobo da corte”, do livro Texto sentido (2007), quando chegar aos 44 me pareceu uma convocação iminente ao inventário. Não precisei fazê-lo. Estava ali, no poema, disfarçado em outro número:


o que sinto nesses quarenta e seis vértices ungidos
que ora espetam ora aguçam os sentidos
é que cada momento vai roendo os ossos e a
dormência do impossível tomando conta de tudo
que é a b s o l u t o

o que comove nesses anos cumpridos entre
verdades amargas e doces mentiras é que apesar
de tudo ainda pude semear as sobras da minha
inquietude

poemas derramados espalhados no tabuleiro do
que tanta vez provoca o asco afirmativo da
existência

o que colhi entrementes nem sempre foi da
melhor safra mas ainda estou aqui escrevendo
versos ligeiramente aptos às consagrações do
esquecimento

o vazio dos olhares atônitos já não apavora
o medo há muito perdeu o sentido

ouço o ruído das horas passando ao largo de uma
vida que se cumpre para muito além das paisagens
guardadas na retina

e sorrio como se fossem oráculos os galhos do
cajueiro que vejo pela porta entreaberta sob o
mantra estridente dos sagüis que resistem
nos esgares da mata

habito meu silêncio
e ouço atentamente a imensidão e a quietude
de tudo que grita e se move

o que está posto é muito mais do que posso
por isso sigo em frente
derrubando os muros que possam afastar
as matilhas da ternura

as águas que passaram nesse rio jamais ficaram
turvas por isso não me curvo e

vou indo vou

rindo de tudo

embriagado com minha própria sede

como um homem que transita pela consciência
dos caminhos jamais percorridos

vou passando

passeando pelo mundo



Raio de amigo poeta que sempre sabe antes de nós, que parece rir das neuroses que, sob suas rédeas, se fizeram metáforas, esvaziando as reverberações super apelativas de nossas emoções indomadas. Ele doma. Molda. Apropria-se. Indo e rindo de si, de tudo, de nós, passeia mesmo. O que, em nós, é inventário, nele é verso malemolente, rio sinuoso de palavra trânsito. Que passa. Mas sem ponto final. Outra vez. E o “mundo merda” é tão mais que isso, só porque ele está ali. O inventário dói. E batemos palmas para a dor, porque nem mais dor sabíamos sentir.

Ter poetas entre os amigos é, enfim, ver-se, como eu, ridiculamente compelida ao texto ode, ao puxa-saquismo deslavado, àquela vontade de dar um abraço bem grandão nesses sujeitos tão descaradamente sábios e néscios, malabaristas 24 horas por dia caminhando nos fios do desejo que a palavra tece e arrebenta bem no meio da caminhada. Cai o poeta e nos leva (amigo...) com ele. Do tombo, surge outro poema. Nele. E outro hematoma. Em nós. Merda de mundo legal esse em que “merda” pode ser bom agouro. Sorte. Isso é ter poetas entre os amigos.

Christina Ramalho
5 de março 2008
(inédita)

23 de jan de 2008

Abertura do canto I do livro Musa Carmesim

Parto não porque queira
ou porque seja mais sensato
parto porque é outono e eu sou a folha
que lentamente derrama na estrada o seu fim.

Parto não porque possa
nem porque deva
nem porque esqueça.
Parto porque é dia e eu sou a luz
da última estrela.

Quem sabe parta porque só assim
possa renascer em mim outro ser.
Quem sabe parta porque ter um fim
é destino certo de toda viagem.

Mas a despedida
atenho adiada
e calada fico
vendo-me partir.
Morro como o sol no horizonte da lembrança
folha que o vento leva em sua andança
e que nenhuma primavera
traz de volta ao amanhecer.

(Musa Carmesim. Campos do Jordão: Vertente, 1998)