11 de abr de 2008

Chuvas

Chove no nordeste. Chove em Natal. Minha cidade-sol anda molhada e esquecida de seus azuis. Todavia, ainda linda, irradia aquela paz nordestina e, de vez em quando, deixa que alguns raios atravessem as nuvens como a brincarem de nos dizer que logo voltarão a saracotear pelas praias.

Chove no nordeste. Natal continua linda. Mas há gente sofrendo. Gente mergulhada na água antes tão escassa e desejada. Como em Vidas secas, a chuva parece debochar de destinos tão carregados de privações. Assisto às reportagens e me pergunto: o que temos feito por essa gente? Por que tanto sofrimento batendo em nossas retinas como um espelho? E por que tão poucos reflexos a espargir soluções?
Chove no meu pensamento. Alagada como o nordeste, a mente se espanta com o fato de eu conseguir extrair alegria da vida, da cidade, do sol e da tempestade enquanto há gente boa, gente trabalhadora e sofrida sem motivos para qualquer alegria. Que egoísmo é esse que me faz conseguir ser feliz em meio a mulheres de rostos doces e marcados que choram suas casas perdidas, seu abandono?
Chovem paradoxos no mundo. E eu, repentinamente, me vejo do lado mais cruel. Aquele onde residem os que perderam muito pouco e acham que sabem de tudo.
(11 de abril de 2008)

3 comentários:

Renan disse...

Em 1927, Jorge Fernandes escreveu o poema:

ENCHENTE

Lá vem cabeçada...
A água vem com sobrosso do alto
De cima das serras dos barrancos...

Primeiro de ponta-pés apagando
Silenciosa os rastos das bebidas...
Enchendo os bebedouros... as bobocas...
Lambendo tudo...
Avança...
Recua...
Pula como um sapo numa loca...
Engrossa... perde a calma...
Suspende camaliões d’água... escurece...
E já sem governo urrando arrasta, as oiticicas...
Derruba as barreiras... vai comendo a areia seca...
Chupando... espumando... rosnando...
Lambendo como o fogo...
Urra por milietas de bocas...
Batendo as queixadas como caititus...
Engolindo as vazantes...

O buzo – telégrafo
Vai ecoando de fazenda em fazenda...

E na água embalada vem o porca...
Vem o boi... vem a jararaca...
Vem o bagaço... os balcedos...
Mas a água grande quer seu paradeiro...
Quer os açudes... as lagoas... onde descansa quieta...
E vai virando o velame... levando nas costas
As miunças dos chiqueiros...
Lutando nas raízes dos umaris
Fofando a areia das raízes
Até derrubar e arrastar correnteza
Afora de cabeça abaixo – umaris e oiticicas...
E vai descansar espelhando nas barragens dos
Açudes e lagoas cheios de marrecos e curimatãs...

O efeito devastador das águas assim como a seca tão bem retratada por Graciliano Ramos não são novidades. O que me angustia é saber por que nós adoramos reprises. Será que somos tão ignorantes em História que não conseguimos nos basear no passado para evitar os mesmos erros?
Lima Barreto, em 1917, descreveu o Brasil de hoje em Os Bruzundangas.
As novelas de hoje são versões de fragmentos das obras da Literatura Clássica. Tudo parece indicar que toda a parafernália tecnológica só nos faz termos a ilusão de correr, como numa esteira de academia. Que sensação pessimista, mas cada vez mais concreta ao observarmos textos como esse. Parabéns e desculpe o tom enfática, mas ao ler algo dessa natureza não há como não me indignar.
Renan Marques Liparotti

Michelle Rolim disse...

Sensível e profunda. Beijos.

Bruno da Costa Ferreira disse...

Infelizmente estamos do lado mais cruel... mas existe um consolo, quando conseguimos visitar o outro lado de alguma forma e ir além da caridade... Adorei conhecer seu blog. Abraço!