27 de jul de 2015

A.Mor


Christina Ramalho
 
O meu amor tem um jeito manso que é só seu…
(CHICO BUARQUE)
 

Para onde me levam os passos do homem que sigo como as transparentes águas do rio obedecendo a seu leito? Para onde me leva este amor envolvente e terno como o aconchego maternal que nos surpreende e resgata nos momentos de dor? Como distrair o pensamento em coisa outra qualquer que não a doce fluidez de tua essência se derramando em mim? Como reinventar o tempo distante, como ter outras lembranças, se não me reconheço fora do que a tua presença me trouxe de espelho? Serão necessárias as perguntas, quando meus poros respiram o sim que meu peito reflete? Poderão ser mais sinceras quaisquer respostas que a intraduzível verdade que vibra as cordas da minha emoção? Perguntas, meu A.Mor, apenas perguntas que brotam da atmosfera de música e poesia em que te encontro. Perguntas, amor, apenas perguntas sábias de respostas, perguntas que querem dizer todas as certezas nas entrelinhas das interrogações.

Não. Minha vida está imersa em sonho, e não há perguntas, nem há respostas – há única e exclusivamente a seda de tua pele, a melodia de tua voz, a infinita beleza de tua sensibilidade e, mais que tudo, há o teu amor, presença mor e mais valiosa. Deixa, portanto, que eu te diga hoje, meu querido, aquilo que não é pergunta, nem resposta. Deixa que eu te presenteie com o que o poeta jamais alcança, com o que o compositor persegue durante toda a vida, com o que o pintor busca alcançar até a última pincelada. Deixa que eu te presenteie com o que eu mesma seria incapaz de tocar com a sensibilidade e transformar em presente; com o que não é lago, nem peixe; barco, nem porto; casa ou ruína; e também não é estrada, estação; rotina, ou identidade. Mas, apenas e justamente, o que está no meio de tudo e que, por isso, é o tudo.

Assim, eu te dou todas as impossibilidades vivenciadas e as músicas encarceradas no silêncio; as flores, a lembrança das flores e a lembrança do aroma das flores; o mistério, a luz, a escuridão e a tempestade, e mesmo o sofrimento e o medo, porque em todas essas coisas sonho e vida se misturam e dão origem a algo que me parece semelhante com o que me deste: esta intraduzível certeza de estar completa. Eu sou tua menina, viu? Tu és o meu rapaz. Corpo e alma testemunham o bem que este amor me faz.
 
[crônica publicada no livro Gente (crônicas) - Rio de Janeiro: Oficina, 2015]