16 de mar de 2008

Alice, a menina-arraia

Hoje, dia 16 de março, foi dia de praia. Tabatinga, Nísia Floresta, Rio Grande do Norte. Sem as filhas, que sempre compõem comigo o trio Chris/Gabi/Isa, a não ser que o plano seja "praia", tive a alegria de uma pequena parceira: Alice, minha sobrinha de 10 anos de idade.
O céu estava quase limpo. Uma ou outra nuvem dava à paisagem aquele ar de "motivo para uma pintura", já que nuvens brincando de desenhos no céu sempre enfeitam as marinhas. A cor do mar trazia azuis de várias gamas, e a temperatura das marolas certamente impediria que o desejo de abandonar as águas surgisse. Assim, antes dos mergulhos, Alice e eu passeamos pela beira do mar sem pressa. Eu, mostrando a ela a beleza daquele pedaço do Rio Grande do Norte; ela, alegre, perseguindo os filhotinhos de siris até conseguir colocar um em sua mão. Depois do passeio, enfim, a água.
Alice, menina-arraia, tornou minha manhã um aquário natural, onde a "tiabarão" ou a "chrisbarão" e a pequena e loira arraia brincavam de lutar, pular, abraçar, perseguir, e mesmo, simplesmente, largar o corpo no ritmo das marolas e entrar em sintonia com o indescritível. Menina-arraia levada e carinhosa, era só abraços e risos, sem saber que, com seus gestos, dissipava a solidão da tia (que anda em tempo de maresias) e preenchia a saudade que todos os dias 16 de março sempre trarão. Talvez, naquele oceano de azuis, um Arthur golfinho brincasse também e, assistindo à alegria da priminha e da mãe, que há dezoito anos vive sem ele, se sentisse igualmente pássaro e livre, pronto para partir novamente, depois do reencontro anual com aquela mulher que jamais esqueceu os olhinhos azuis do filho. Brincadeira e lembrança tinham sal, mas sal da vida, não da morte.
No final, ritual de caranguejo, casquinha-de-siri, sorvetes e cocas zero cumprido, voltamos juntas cantando o "Pelados em Santos" e o "Rindo à toa". Mar, amar, brincar, cantar. A rima pobre de sempre fazendo rica a vida da gente.
Em Tabatinga, Alice, menina-arraia, compôs um dia feliz para mim, quando eu pensava que teria um 16 de março sem água, sem azuis, sem peixes, sem brincadeira. Ei, menina-arraia, valeu!!

13 de mar de 2008

Tempestade em Natal

Berros sacodem as janelas do meu quarto, antecipando o despertador. Tempestade em Natal. Entreabro as cortinas. Meu azul fez-se branco e bravo, e chora violento, espargindo angústias sobre telhados e vidros. Buscar Apolo é uma impossibilidade tão grande, que imediatamente recolho olhos e desejo e volto a buscar as cobertas para esconder minha solidão.

Talvez a cidade brinde essas águas. A sede do sertão será aliviada. O calor deixará de ter a força aguda que franze as testas. As flores das avenidas certamente estarão viçosas amanhã ou depois, quando a chuva se for. E o curso da vida seguirá nos espelhos d’água que ainda ficarão nas avenidas.

Mas eu contarei no relógio o tempo que me separará de Apolo. Ele é o único que sabe derramar luz em mim.

13/03/2008

5 de mar de 2008

Uma crônica-ode por falta de versos competentes

Ter poetas entre os amigos é algo marcante na vida de qualquer pessoa. Embora poemas alheios a seus autores sejam acessíveis a nós, bastando, para isso, que busquemos tê-los por perto, quando quem está próximo de nós é um poeta (ou uma, registre-se bem), não tem jeito: algo que muitas vezes nem pensaríamos em buscar se apresenta diante de nós, instigando-nos o tempo todo a romper com a monotonia do pensamento 3 X 4. Um amigo poeta é colírio, é susto, é aquele par “anjo/demônio” soprando gracejos em nossos ouvidos. Pensamos: “o mundo é uma merda!” E nosso amigo poeta diz a mesma coisa. Mas não diz a mesma coisa. Diz mais. Diz diferente. Diz de um jeito tão danado de bom, que, de repente, passamos a olhar para o tal “mundo merda” com olhos que não tínhamos. E, como uma contradição, ao olharmos para o mundo através dos olhos que a poesia construiu em nós, ele, o mundo, também de repente parece não ser “tão merda” assim... afinal, não é que nele habita um poeta? Falo isso e me lembro do poema “Fardo (a consciência do zero, 1981)”, do livro Rarefato (1990), de Frederico Barbosa:

tenho que
tentáculos afiados tentando
fincar a vista futura feito
oráculo

não sou cego não sossego

Raio de poeta que nega Homero para ser um. Raio terrível de poeta que brinca de dizer quão aguda é a palavra que percebe além de nós, que guarda lince nos olhos, angústia na consciência do vaticínio que nem vaticínio é, porque não há sequer espaço para a consolidação da imagem que se previu. O mundo acelera o poema, que morre logo depois do ponto final. Isso, poeta, não use o ponto final. Não sossegue. Nunca.
Ter poetas entre os amigos é essa coisa angustiante de se ver invadido/a por esses tentáculos afiados e ter que sobreviver sem as sobras do que éramos antes do poema. Poemas cuspidos em nossa cara, em nosso cotidiano, em nossa mesquinha necessidade de pularmos contentes dentro da bolha que nos protege, sem perceber que ela é de sabão. Amigos poetas, com sua chuva de sentidos, exigem de nós reinaugurações constantes. É um “reinventar-se” que não acaba nunca. É aquela consciência de ser o solitário entre as gentes, de ser o sobrevivente cuja reinauguração jamais é suficiente, como me faz recordar outro amigo poeta, o Luiz Otávio Oliani, no poema “Fatalidade”, do livro Fora de órbita (2007):

a vida pulsa em hiatos
e não sei pedir socorro

camaleão fora do ventre
transmudo a cor à revelia

mas a morte não é daltônica

Outra vez sem ponto final. Outra espetada na consciência tão placidamente sentada na ante-sala do existir, isenta de poemas, como uma vida (?) confortável deveria ser. E, no entanto, todavia, contudo, porém, vem-nos o amigo poeta, com seu poema dizer não o que precisamos ouvir, mas o que precisamos ter para dizer. E a não daltônica morte visita nossa ante-sala soando todos os alarmes e dizendo: “Não há sala!! O que você está fazendo aí? Esperando o quê?” Ele não pede socorro, mas nos socorre. Sina maldita.

Ter poetas entre os amigos é, assim, estar sempre cutucando aquela feridinha antiga, numa espécie de ritual sadomasoquista, em que somos algozes e vítimas. Algozes, porque amamos nossos amigos poetas mais do amamos a nós mesmos, logo, com eles aderimos à desconstrução do mundo e viramos guerreiros absurdos com baionetas que atiram fonemas e ferem alguns poucos ouvidos atentos. Vítimas, porque, embebedados por suas palavras, saímos mesmo por aí, atirando em tudo, principalmente em nós. E, no entanto, todavia, contudo, porém, e todas as adversativas que os amigos poetas nos trazem, ressuscitamos a cada novo poema, como conseguiu fazer Lau Siqueira, com seu “Bobo da corte”, do livro Texto sentido (2007), quando chegar aos 44 me pareceu uma convocação iminente ao inventário. Não precisei fazê-lo. Estava ali, no poema, disfarçado em outro número:


o que sinto nesses quarenta e seis vértices ungidos
que ora espetam ora aguçam os sentidos
é que cada momento vai roendo os ossos e a
dormência do impossível tomando conta de tudo
que é a b s o l u t o

o que comove nesses anos cumpridos entre
verdades amargas e doces mentiras é que apesar
de tudo ainda pude semear as sobras da minha
inquietude

poemas derramados espalhados no tabuleiro do
que tanta vez provoca o asco afirmativo da
existência

o que colhi entrementes nem sempre foi da
melhor safra mas ainda estou aqui escrevendo
versos ligeiramente aptos às consagrações do
esquecimento

o vazio dos olhares atônitos já não apavora
o medo há muito perdeu o sentido

ouço o ruído das horas passando ao largo de uma
vida que se cumpre para muito além das paisagens
guardadas na retina

e sorrio como se fossem oráculos os galhos do
cajueiro que vejo pela porta entreaberta sob o
mantra estridente dos sagüis que resistem
nos esgares da mata

habito meu silêncio
e ouço atentamente a imensidão e a quietude
de tudo que grita e se move

o que está posto é muito mais do que posso
por isso sigo em frente
derrubando os muros que possam afastar
as matilhas da ternura

as águas que passaram nesse rio jamais ficaram
turvas por isso não me curvo e

vou indo vou

rindo de tudo

embriagado com minha própria sede

como um homem que transita pela consciência
dos caminhos jamais percorridos

vou passando

passeando pelo mundo



Raio de amigo poeta que sempre sabe antes de nós, que parece rir das neuroses que, sob suas rédeas, se fizeram metáforas, esvaziando as reverberações super apelativas de nossas emoções indomadas. Ele doma. Molda. Apropria-se. Indo e rindo de si, de tudo, de nós, passeia mesmo. O que, em nós, é inventário, nele é verso malemolente, rio sinuoso de palavra trânsito. Que passa. Mas sem ponto final. Outra vez. E o “mundo merda” é tão mais que isso, só porque ele está ali. O inventário dói. E batemos palmas para a dor, porque nem mais dor sabíamos sentir.

Ter poetas entre os amigos é, enfim, ver-se, como eu, ridiculamente compelida ao texto ode, ao puxa-saquismo deslavado, àquela vontade de dar um abraço bem grandão nesses sujeitos tão descaradamente sábios e néscios, malabaristas 24 horas por dia caminhando nos fios do desejo que a palavra tece e arrebenta bem no meio da caminhada. Cai o poeta e nos leva (amigo...) com ele. Do tombo, surge outro poema. Nele. E outro hematoma. Em nós. Merda de mundo legal esse em que “merda” pode ser bom agouro. Sorte. Isso é ter poetas entre os amigos.

Christina Ramalho
5 de março 2008
(inédita)