11 de abr. de 2008

Chuvas

Chove no nordeste. Chove em Natal. Minha cidade-sol anda molhada e esquecida de seus azuis. Todavia, ainda linda, irradia aquela paz nordestina e, de vez em quando, deixa que alguns raios atravessem as nuvens como a brincarem de nos dizer que logo voltarão a saracotear pelas praias.

Chove no nordeste. Natal continua linda. Mas há gente sofrendo. Gente mergulhada na água antes tão escassa e desejada. Como em Vidas secas, a chuva parece debochar de destinos tão carregados de privações. Assisto às reportagens e me pergunto: o que temos feito por essa gente? Por que tanto sofrimento batendo em nossas retinas como um espelho? E por que tão poucos reflexos a espargir soluções?
Chove no meu pensamento. Alagada como o nordeste, a mente se espanta com o fato de eu conseguir extrair alegria da vida, da cidade, do sol e da tempestade enquanto há gente boa, gente trabalhadora e sofrida sem motivos para qualquer alegria. Que egoísmo é esse que me faz conseguir ser feliz em meio a mulheres de rostos doces e marcados que choram suas casas perdidas, seu abandono?
Chovem paradoxos no mundo. E eu, repentinamente, me vejo do lado mais cruel. Aquele onde residem os que perderam muito pouco e acham que sabem de tudo.
(11 de abril de 2008)

16 de mar. de 2008

Alice, a menina-arraia

Hoje, dia 16 de março, foi dia de praia. Tabatinga, Nísia Floresta, Rio Grande do Norte. Sem as filhas, que sempre compõem comigo o trio Chris/Gabi/Isa, a não ser que o plano seja "praia", tive a alegria de uma pequena parceira: Alice, minha sobrinha de 10 anos de idade.
O céu estava quase limpo. Uma ou outra nuvem dava à paisagem aquele ar de "motivo para uma pintura", já que nuvens brincando de desenhos no céu sempre enfeitam as marinhas. A cor do mar trazia azuis de várias gamas, e a temperatura das marolas certamente impediria que o desejo de abandonar as águas surgisse. Assim, antes dos mergulhos, Alice e eu passeamos pela beira do mar sem pressa. Eu, mostrando a ela a beleza daquele pedaço do Rio Grande do Norte; ela, alegre, perseguindo os filhotinhos de siris até conseguir colocar um em sua mão. Depois do passeio, enfim, a água.
Alice, menina-arraia, tornou minha manhã um aquário natural, onde a "tiabarão" ou a "chrisbarão" e a pequena e loira arraia brincavam de lutar, pular, abraçar, perseguir, e mesmo, simplesmente, largar o corpo no ritmo das marolas e entrar em sintonia com o indescritível. Menina-arraia levada e carinhosa, era só abraços e risos, sem saber que, com seus gestos, dissipava a solidão da tia (que anda em tempo de maresias) e preenchia a saudade que todos os dias 16 de março sempre trarão. Talvez, naquele oceano de azuis, um Arthur golfinho brincasse também e, assistindo à alegria da priminha e da mãe, que há dezoito anos vive sem ele, se sentisse igualmente pássaro e livre, pronto para partir novamente, depois do reencontro anual com aquela mulher que jamais esqueceu os olhinhos azuis do filho. Brincadeira e lembrança tinham sal, mas sal da vida, não da morte.
No final, ritual de caranguejo, casquinha-de-siri, sorvetes e cocas zero cumprido, voltamos juntas cantando o "Pelados em Santos" e o "Rindo à toa". Mar, amar, brincar, cantar. A rima pobre de sempre fazendo rica a vida da gente.
Em Tabatinga, Alice, menina-arraia, compôs um dia feliz para mim, quando eu pensava que teria um 16 de março sem água, sem azuis, sem peixes, sem brincadeira. Ei, menina-arraia, valeu!!

13 de mar. de 2008

Tempestade em Natal

Berros sacodem as janelas do meu quarto, antecipando o despertador. Tempestade em Natal. Entreabro as cortinas. Meu azul fez-se branco e bravo, e chora violento, espargindo angústias sobre telhados e vidros. Buscar Apolo é uma impossibilidade tão grande, que imediatamente recolho olhos e desejo e volto a buscar as cobertas para esconder minha solidão.

Talvez a cidade brinde essas águas. A sede do sertão será aliviada. O calor deixará de ter a força aguda que franze as testas. As flores das avenidas certamente estarão viçosas amanhã ou depois, quando a chuva se for. E o curso da vida seguirá nos espelhos d’água que ainda ficarão nas avenidas.

Mas eu contarei no relógio o tempo que me separará de Apolo. Ele é o único que sabe derramar luz em mim.

13/03/2008

5 de mar. de 2008

Uma crônica-ode por falta de versos competentes

Ter poetas entre os amigos é algo marcante na vida de qualquer pessoa. Embora poemas alheios a seus autores sejam acessíveis a nós, bastando, para isso, que busquemos tê-los por perto, quando quem está próximo de nós é um poeta (ou uma, registre-se bem), não tem jeito: algo que muitas vezes nem pensaríamos em buscar se apresenta diante de nós, instigando-nos o tempo todo a romper com a monotonia do pensamento 3 X 4. Um amigo poeta é colírio, é susto, é aquele par “anjo/demônio” soprando gracejos em nossos ouvidos. Pensamos: “o mundo é uma merda!” E nosso amigo poeta diz a mesma coisa. Mas não diz a mesma coisa. Diz mais. Diz diferente. Diz de um jeito tão danado de bom, que, de repente, passamos a olhar para o tal “mundo merda” com olhos que não tínhamos. E, como uma contradição, ao olharmos para o mundo através dos olhos que a poesia construiu em nós, ele, o mundo, também de repente parece não ser “tão merda” assim... afinal, não é que nele habita um poeta? Falo isso e me lembro do poema “Fardo (a consciência do zero, 1981)”, do livro Rarefato (1990), de Frederico Barbosa:

tenho que
tentáculos afiados tentando
fincar a vista futura feito
oráculo

não sou cego não sossego

Raio de poeta que nega Homero para ser um. Raio terrível de poeta que brinca de dizer quão aguda é a palavra que percebe além de nós, que guarda lince nos olhos, angústia na consciência do vaticínio que nem vaticínio é, porque não há sequer espaço para a consolidação da imagem que se previu. O mundo acelera o poema, que morre logo depois do ponto final. Isso, poeta, não use o ponto final. Não sossegue. Nunca.
Ter poetas entre os amigos é essa coisa angustiante de se ver invadido/a por esses tentáculos afiados e ter que sobreviver sem as sobras do que éramos antes do poema. Poemas cuspidos em nossa cara, em nosso cotidiano, em nossa mesquinha necessidade de pularmos contentes dentro da bolha que nos protege, sem perceber que ela é de sabão. Amigos poetas, com sua chuva de sentidos, exigem de nós reinaugurações constantes. É um “reinventar-se” que não acaba nunca. É aquela consciência de ser o solitário entre as gentes, de ser o sobrevivente cuja reinauguração jamais é suficiente, como me faz recordar outro amigo poeta, o Luiz Otávio Oliani, no poema “Fatalidade”, do livro Fora de órbita (2007):

a vida pulsa em hiatos
e não sei pedir socorro

camaleão fora do ventre
transmudo a cor à revelia

mas a morte não é daltônica

Outra vez sem ponto final. Outra espetada na consciência tão placidamente sentada na ante-sala do existir, isenta de poemas, como uma vida (?) confortável deveria ser. E, no entanto, todavia, contudo, porém, vem-nos o amigo poeta, com seu poema dizer não o que precisamos ouvir, mas o que precisamos ter para dizer. E a não daltônica morte visita nossa ante-sala soando todos os alarmes e dizendo: “Não há sala!! O que você está fazendo aí? Esperando o quê?” Ele não pede socorro, mas nos socorre. Sina maldita.

Ter poetas entre os amigos é, assim, estar sempre cutucando aquela feridinha antiga, numa espécie de ritual sadomasoquista, em que somos algozes e vítimas. Algozes, porque amamos nossos amigos poetas mais do amamos a nós mesmos, logo, com eles aderimos à desconstrução do mundo e viramos guerreiros absurdos com baionetas que atiram fonemas e ferem alguns poucos ouvidos atentos. Vítimas, porque, embebedados por suas palavras, saímos mesmo por aí, atirando em tudo, principalmente em nós. E, no entanto, todavia, contudo, porém, e todas as adversativas que os amigos poetas nos trazem, ressuscitamos a cada novo poema, como conseguiu fazer Lau Siqueira, com seu “Bobo da corte”, do livro Texto sentido (2007), quando chegar aos 44 me pareceu uma convocação iminente ao inventário. Não precisei fazê-lo. Estava ali, no poema, disfarçado em outro número:


o que sinto nesses quarenta e seis vértices ungidos
que ora espetam ora aguçam os sentidos
é que cada momento vai roendo os ossos e a
dormência do impossível tomando conta de tudo
que é a b s o l u t o

o que comove nesses anos cumpridos entre
verdades amargas e doces mentiras é que apesar
de tudo ainda pude semear as sobras da minha
inquietude

poemas derramados espalhados no tabuleiro do
que tanta vez provoca o asco afirmativo da
existência

o que colhi entrementes nem sempre foi da
melhor safra mas ainda estou aqui escrevendo
versos ligeiramente aptos às consagrações do
esquecimento

o vazio dos olhares atônitos já não apavora
o medo há muito perdeu o sentido

ouço o ruído das horas passando ao largo de uma
vida que se cumpre para muito além das paisagens
guardadas na retina

e sorrio como se fossem oráculos os galhos do
cajueiro que vejo pela porta entreaberta sob o
mantra estridente dos sagüis que resistem
nos esgares da mata

habito meu silêncio
e ouço atentamente a imensidão e a quietude
de tudo que grita e se move

o que está posto é muito mais do que posso
por isso sigo em frente
derrubando os muros que possam afastar
as matilhas da ternura

as águas que passaram nesse rio jamais ficaram
turvas por isso não me curvo e

vou indo vou

rindo de tudo

embriagado com minha própria sede

como um homem que transita pela consciência
dos caminhos jamais percorridos

vou passando

passeando pelo mundo



Raio de amigo poeta que sempre sabe antes de nós, que parece rir das neuroses que, sob suas rédeas, se fizeram metáforas, esvaziando as reverberações super apelativas de nossas emoções indomadas. Ele doma. Molda. Apropria-se. Indo e rindo de si, de tudo, de nós, passeia mesmo. O que, em nós, é inventário, nele é verso malemolente, rio sinuoso de palavra trânsito. Que passa. Mas sem ponto final. Outra vez. E o “mundo merda” é tão mais que isso, só porque ele está ali. O inventário dói. E batemos palmas para a dor, porque nem mais dor sabíamos sentir.

Ter poetas entre os amigos é, enfim, ver-se, como eu, ridiculamente compelida ao texto ode, ao puxa-saquismo deslavado, àquela vontade de dar um abraço bem grandão nesses sujeitos tão descaradamente sábios e néscios, malabaristas 24 horas por dia caminhando nos fios do desejo que a palavra tece e arrebenta bem no meio da caminhada. Cai o poeta e nos leva (amigo...) com ele. Do tombo, surge outro poema. Nele. E outro hematoma. Em nós. Merda de mundo legal esse em que “merda” pode ser bom agouro. Sorte. Isso é ter poetas entre os amigos.

Christina Ramalho
5 de março 2008
(inédita)

23 de jan. de 2008

Abertura do canto I do livro Musa Carmesim

Parto não porque queira
ou porque seja mais sensato
parto porque é outono e eu sou a folha
que lentamente derrama na estrada o seu fim.

Parto não porque possa
nem porque deva
nem porque esqueça.
Parto porque é dia e eu sou a luz
da última estrela.

Quem sabe parta porque só assim
possa renascer em mim outro ser.
Quem sabe parta porque ter um fim
é destino certo de toda viagem.

Mas a despedida
atenho adiada
e calada fico
vendo-me partir.
Morro como o sol no horizonte da lembrança
folha que o vento leva em sua andança
e que nenhuma primavera
traz de volta ao amanhecer.

(Musa Carmesim. Campos do Jordão: Vertente, 1998)

18 de dez. de 2007

Vendaval

Mordo suave
mas precisa
a ponta carnuda
do adâmico seio.
E o vendaval,
rasgando tudo,
destrói lençóis
e me parte
ao meio.

(publicado em Poesia viva em revista, 2005, pela UAPÊ)

13 de nov. de 2007

Mia

Sempre vi os gatos como "bichos cercados de garras por todos os lados". Apesar de lhes admirar a beleza, fotografá-los em poses diversas, ter um gato ou uma gata, definitivamente, parecia algo incongruente com meu modo de ser e de sentir.
O mistério dos gatos jamais me fascinou a ponto de desejá-los inseridos no meu dia-a-dia. Ao contrário, a transparência dos cães, sim, motivava-me, afinal, é realmente prazeroso contar com a fidelidade de nossos cães quando o mundo tem sido tão "infiel" a nossos sonhos.

Todavia, a vida, com suas surpresas, trouxe-nos Mia. Ela veio após duas experiências com cães. Apesar de não ser muito afeita às rotinas que os animais domésticos nos impõem, acredito que a infância, acompanhada de um animal doméstico, é mais intensa e significativa. Por isso, quando Gabi e Isa começaram a se interessar por animais, não hesitei: "sim".

A primeira cachorrinha que tivemos, Fifi, uma poodle branca e bem magrinha, morreu aos sete anos, deixando um vazio em nossa casa. Ela era delicada como uma "cachorrinha de madame", mas não a tratávamos com "frescuras". Ela era "fresca" por natureza. Após fazer xixi, levantava uma das patinhas e saltitava com a outra para não "tocar" na "sujeira"...

Quando tornava banho, parecia ganhar "ares de superioridade" com seu lacinho e seus pompons. Mas era igualmente inteligente. Sabia, por exemplo, abrir minha bolsa quando percebia haver balas ou chocolates lá dentro. Às vezes, à noite, subia sorrateiramente em nossas camas, enroscava-se no cobertor e por lá ficava até ser descoberta. Seu único defeito: latir insistentemente quando algum barulho do lado de fora surgia. Nada adequado para um cão de apartamento... Um dia, quando estávamos viajando, ela teve uma crise hepática e morreu em poucas horas. Choramos as três, em meio à culpa (afinal não estávamos por perto) e à saudade (talvez ali nós tivéssemos nos dado conta claramente de sua importância em nosso cotidiano). Bem, como a infância já tinha se transformado em "pré-adolescência", sentenciei: "Chega de animais!".

Sentença revogada. A pedido das filhas e, confesso, mortalmente atingida por uma paixão à primeira vista (ou à primeira vitrine), dois meses depois, providenciei outra cadelinha: Nina, uma beagle linda e levadíssima, que quase me levou ao desespero com sua correria, sua fome, seu jeito estabanado. Olhava para ela e me via em sua companhia quando as meninas já estivessem em suas próprias casas. Mas sua determinada teimosia e desobediência às "normas de higiene" da casa me diziam que essa "longa convivência" estava bem longe de ser possível. Fotografei, filmei, comprei acessórios, brinquedos, caminha, etc, e tal. Mas... Não! A imundície invadira meu lindo apartamento. Dei fim àquela tortura e, com o coração partido, entreguei Nina para uma pessoa apaixonada pela raça, que até hoje a trata com delicadeza e ternura admiráveis. Consenso familiar: chega de bichos.

Consenso revogado. A mais nova quer um gato.

Gato? Pensei. Gato é meu signo no horóscopo chinês... E daí? Os gatos são belos e comportados. Gatos não sujam tudo. Não necessitam de "faxina semanal". Por favor, mãe, eu cuido. Eu limpo. Gato? Lembrei-me do Gato de Botas (espertíssimo), da egípcia gata-deusa Sakhmet-Bastet, dos gatos da sorte orientais, do gato preto pronto a cruzar os caminhos dos desavisados, do Gato Félix, do Garfield, dos Aristogatas, do Tom... Mas e as unhas? E as doenças? E a toxoplasmose? Não é esse o nome da doença que podem transmitir? Não. Não. Sim. Não. Sim. Não sei. Talvez. Depende. São necessárias maiores informações. Não entendo de gatos. Gato ou gata? Onde? Comprar, nunca! Já gastei demais com Fifi e Nina. E as unhas? Ai, ai, ai...

Operação adoção. Internet. Gatinha abandonada no Campo de Santana procura lar. E lá fomos nós, eu e a caçula (a mais velha não concordava muito com aquela "novidade") visitar o "orfanato" de gatos mantido por uma veterinária consciente. Lá estava ela. Olhou-nos com seus verdes enigmáticos. Ficamos sabendo: "É exclusivista. Não poderão ter outros, pois ela é ciumenta!" Levamos. Eu sequer sabia como pegar, carregar, alimentar, mexer, etc. Minha filha estava encantada. Sempre ficam. Vamos lá. Veterinário. Compras. Compras. Janelas e portas fechadas. Medo das unhas.

Depois de alguns arranhõezinhos, que pouquíssimo incomodam, a decisão: o nome será "Mia". O miado, de fato, era uma novidade em nossas vidas. Aliás, curiosamente, miado não é um som, são muitos e variados. Quando Mia mia, conversa. Está sempre perto de nós. Não resiste a qualquer tipo de cadarço, corda, barbante. Pega-se neles imediatamente. Limpíssima, usou a caixinha de areia assim que a viu instalada perto da máquina de lavar. Gulosa, devora sua ração, mas não se interessa por nossa comida, com exceção dos iogurtes, uma vez que a mais velha (já interessada...) resolveu lhe permitir uma lambidinha na tampa do "Bliss"... Se Mia nos vê com um iogurte na mão, imediatamente se aproxima, tentando ganhar colo. Aliás, colo é uma exigência. É praticamente impossível sentar no sofá sem ver meu colo invadido por ela, que, sem cerimônia alguma, enrosca-se em nós como um bebê.

Há, entretanto, um algo mais em Mia que me é, particularmente, significativo. Ela não pode ver uma bolsa ou um saco. Imediatamente se enfia nela ou nele e fica por lá, quietinha. Às vezes, ao chegar do supermercado, provoco sua reação. Deixo um saco no chão e espero. Dito e feito. Enfia-se lá, misteriosa em seu gesto. Penso. Será carência ou desejo de partir?

Talvez essa metáfora de Mia seja o que nela mais me comove. Na dúvida entre seu estado de carência e seu espírito de aventura, vejo a mim mesma. Como um espelho. Os verdes olhos de Mia se fizeram espelho. E, em função dela, tenho andado a pensar como andam misteriosos os caminhos de meu próprio amadurecimento.

(Publicado originalmente em Ciranda de Uvas, Editora Opus, 2004. Também disponível em pedagogiaemfoco.pro.br/remia.html)

Absoluta saudade

O mar deste quarto não tem praias,
nem serve de limites. Traz as mágoas,
mas não me leva a ti. Traz os peixes,
mas não fisga a dor, nem cicatriza a fome.

O mar deste quarto é sem graça
e transborda pesadelo para o sonho.
É reflexo da falta que me fazes,
verde corrosivo, azul com teu nome.

O mar deste quarto não tem superfície,
nem me serve pra navegar. Traz teu vulto
como um barco. Traz teus olhos
mas não traz teu olhar.

O mar, neste quarto, solitário,
sem praias, sem barcos, sem mar,
é só a presença da tua ausência,
absoluta saudade de te amar.

(poema publicado no livro Laço e nó (Rio de Janeiro: Elo, 2000)